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Não Olhe para Cima | Crítica

A ficção trajada de realidade


Não Olhe para Cima

ESTE ARTIGO NÃO CONTÉM SPOILERS

Publicado por: Lexrenato

Há algum tempo atrás, a Netflix anunciou que lançaria um filme por semana em todo o ano de 2021. Logo de cara ao ler essa informação, eu imaginei o tanto de projeto descartável que sairia dessa empreitada. E não deu outra, a quantidade de obras esquecíveis beiram ao infinito (exagero gente, calma).

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Felizmente, ao lançar tantos filmes assim, a empresa conseguiu acertar aqui ou ali… lançando obras interessantes e até questionadoras, é o caso claro de Não Olhe para Cima (Don't Look Up). O filme, que é dirigido por Adam McKay, chegou em 24 de dezembro e está ainda, no momento deste texto, entre os mais assistidos do streaming.

O que chama atenção de imediato nesta sátira, é o elenco recheado de estrelas, que apesar de não estarem aquelas maravilhas, estão sim muito bem em seus respectivos papéis. É claro que Leonardo Dicaprio (Randall Mindy), e Jennifer Lawrence (Kate Dibiasky), roubam a cena, e dão aquele breve, mas belo espetáculo. A moça, ao representar uma mulher que é constantemente questionada, invalidada ou taxada de louca, sabe conduzir como ninguém uma interpretação crível de alguém que realmente está exausta, com medo e muito nervosa com todo o plot do longa. Já DiCaprio consegue ir aos poucos dando mais e mais camadas ao seu personagem, o que nos faz gostar dele mesmo quando comete atos no mínimo questionáveis.

Já sobre outros personagens, a direção prefere retratar toda a classe política quase como palhaços (é onde se fica mais claro o seu gênero, a sátira), uma forma tão caricata de uma autoridade pública, que até me tirou algumas vezes daquela realidade, no entanto, ao sair daquele mundo com esse pensamento (de que são todos palhaços), automaticamente me vinha à mente as autoridades recentes que temos acompanhado, e todo aquele ar ridículo de alguns personagens passavam automaticamente a fazer sentido. É importante salientar que a sátira está contextualizada num contexto estadunidense. Um bela sacada da direção.

Não Olhe para Cima

Além disso, há ainda várias outras discussões possíveis de discorrer sobre o longa, como a já citada invalidação da voz feminina, do homem negro em detrimento do branco, a busca por futilidade da vida de celebridades, a dessensibilização causada por tecnologia e etc.

Mas obviamente não é apenas isso que Não Olhe para Cima nos oferece. O longa, já em seus primeiros minutos, nos revela que um cometa está em rota de colisão com a Terra, e que isso causará uma extinção em massa. O roteiro se desenrola a partir daí, apresentando toda a dificuldade de parte da comunidade científica em alertar as pessoas da gravidade da situação.

Apesar do filme ter sido desenvolvido antes da pandemia que ainda estamos enfrentando, é impossível não fazer um paralelo automático com a situação, pois muito apresentado ali vimos ao vivo durante todo esse desenrolar de vacinas e orientações de saúde. Desacreditar cientistas, seja por questões religiosas, teorias conspiratórias, políticas ou até brincadeiras como memes, se demonstrou um erro, tanto na realidade quanto na ficção. Estamos aqui diante da principal mensagem do longa: O quanto as pessoas estão em suas próprias bolhas, causadas principalmente pela ascensão de redes sociais, que tendem a nos aproximar de quem concordamos e nos afastar de quem discordamos, causando grupos enormes de bons e maus pensadores. O filme esfrega na nossa cara a incapacidade de não reflexão da sociedade como um todo, pois, por mais que você, indivíduo, acredite contribuir de forma pensante para uma sociedade mais igualitária ou reflexiva, a forma como que a sociedade se constituiu, seja por dogmas ou tecnologias, engole seus gritos ou mensagens como se não fossem nada. Dessa forma, apesar de todos os seus exageros, o longa nos deixa aquele gostinho amargo de que aquilo pode se tornar real, ou que já seja real talvez...

No final, a pergunta que fica disso tudo é: O que Carl Sagan faria?

AVALIAÇÃO: 4.0