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Place des Victoires | Crítica Retrô

Place des Victoires

Artigo escrito por: Isadora
Criadora do O Último Take
Instagram: @ultimotake

O curta 'Place des Victoires' dirigido por Nobuhiro Suwa, é um dos curtas que faz parte do filme 'Paris Eu te Amo', um longa que possuí sua montagem realizada através de um apanhado de pequenas histórias. Este curta relata um dia na vida de uma mulher que acaba de perder o filho, onde sente completamente vazia e incompleta e só quer ter a oportunidade de abraçar a criança novamente. O longa apresenta a morte como tema principal e mesma até mesmo chega a ser personificada através da figura de um cowboy, fator de ligação imediata entre a mãe e a criança, uma vez que o mesmo era fascinado por cowboys de filmes de faroeste americano.

O curta é todo trabalhado na coloração escura mesclada ao uso de cores quentes e no som, onde a mulher segue a voz do filho que acredita ter ouvido até chegar próxima à estátua de um cowboy. A composição chega a ser até mesmo mística, uma vez que toda a história gira entorno de um devaneio da protagonista que precisa libertar a alma do filho através da aceitação de sua morte, além de conseguir se recompor para estar presente para seu marido e filha, que também sentem a perda e precisam da presença da mesma para seguir em frente. Toda a parte imagética criada encontra-se aí e é dividida em duas partes. O início do filme é onde se vê com mais ferocidade a coloração quente e escura, onde vemos uma mãe nitidamente abalada e deprimida. Ao longo do filme, quando a morte se apresenta e lhe permite termais um tempo com a criança para enfim libertá-la, o filme fica mais claro, limpo, nítido e feliz, como se tudo encaixasse na vida da personagem principal, entretanto, após vero filho partir com o cowboy e lhe permitir morrer, o filme volta à cor escura apresentada naturalmente e a nebulosidade volta a rondar a personagem, só que desta vez, a mesma está pronta para manda-la embora por um tempo indeterminado.

Além dos fatores técnicos, a construção dos personagens é feita de forma nítida, uma vez que conseguimos interpretar a protagonista como sendo uma mãe a morosa, presente, entregue aos filhos e independente. Ela é uma mãe rígida, porém permiti que seus filhos tenham uma infância comum, com brincadeiras e diversões,sem perder os limites e os ensinamentos cruciais. Entretanto, a vida da mesma parece estar totalmente e unicamente ligada aos filhos, como se não vivesse para outra coisa ou até mesmo para si mesma, sua existência está completamente voltada a ensinar seus filhos, amá-los e fazê-los felizes, por isso, ao perder seu filho mais velho sua estrutura emocional encontra-se completamente abalada, onde a energia da vida some completamente de dentro de si. A mesma não encontra motivos ou razões para continuar, uma vez que a seu ver, a mesma haveria falhado como mãe após liberar o primogênito para brincar na rua com os amigos. Pode-se dizer que a infelicidade, falta e instabilidade encontra-se tão forte que a mesma planeja até mesmo cometer suicídio e abrir mão de todo o resto construído, incluindo seu marido e sua filha caçula, que claramente precisa da mãe.

A protagonista vive o luto e a perda sem motivos ou razões para sair ou conseguir se libertar e libertar a alma de seu filho, fator que acaba causando um devaneio em uma noite, como se a criança pedisse que a mãe finalmente o deixasse seguir seu caminho rumo ao “céu”. A mulher é levada inconscientemente até a figura de maior paixão de seu filho, a estátua de um cowboy, que toma vida e a permite ver a criança uma última vez, porém, ao conseguir pegá-lo novamente nos braços e se sentir viva novamente, com todos os pontos de sua vida encaixados, a mulher simplesmente não consegue abrir mão daquilo, precisando novamente de uma intervenção da figura do cowboy, que chama a atenção da criança que pede para poder ir com seu herói, que finalmente leva a alma do menino para a pás plena, libertando-o do luto incondicional de sua mãe.

Porém, vê-se claramente que por mais que seu inconsciente estivesse sabendo que era necessário libertar a criança, a mulher em seu todo encontra-se despreparada para abrir mão do luto e se libertar da perda, que com toda certeza será eterna e de uma falta nunca saciada, mas, ao conseguir deixar a criança acompanhara figura que representa a morte, a mesma deixa que parte de si também seja levada para que a partir disso, uma outra parte possa ser refeita. Assim que o devaneio acaba, percebe-se que o choro da mulher se intensifica, deixando de ser um choro de luto para um choro de adeus absoluto e aceitação do indesejado, causando a libertação não apenas da alma da criança, mas também da sua própria alma. Agora, vê-se que a mãe se encontra num mundo que precisa ser vivido e felicitado, relembrando de sua outra filha e de seu marido, que necessitam de um lar onde afigura do filho mais velho seja lembrada com carinho, amor e saudades e não como uma névoa, mágoa, tristeza e luto eterno.

A figura da mulher é trabalhada no curta através da maternidade, um fator que por anos na história foi o divisor e definidor da feminilidade como um todo. A ligação entre uma mãe e um filho é inexplicável e indescritível, é de total afirmação que a conexão e paixão da mãe com o filho é bem maior e fortalecido que o do pai com um filho, uma vez que a mesma é a primeira e a mais forte ligação da criança com o mundo esterno, sem contar que o primeiro toque, olhar, carinho e admiração que qualquer criança sente é através de sua mãe. Isso no curta é apresentado através da tristeza contida e do luto de certa forma aceitado pelo marido e mostrado total mente exagerado, intenso e não acreditado pela mãe, outro fator que liga à figura psicológica do feminino, uma vez que a mulher era vista como histérica, exagerada e intensa, fatores incompreendidos pela figura masculina.