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Roubando a cena, literalmente


Cinema

Artigo escrito por: Fabio Belik
Publicitário e autor do blog Crônica de Cinema

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Escrever sobre cinema é parecido com pisar em ovos. É possível atravessar o desafio, mas algumas claras e gemas terminarão espalhadas. Nestes poucos meses em que me impus a obrigação de escrever uma crônica por semana, sempre comentando sobre algum filme relevante, percebi que é impossível agradar a todos. Ao contrário, o mais provável é acabar desagradando a muitos.

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Isso acontece por um motivo básico: todo mundo entende de cinema. Esse é um fato inquestionável. Desde que nascemos – e até mesmo antes, na barriga da mãe – somos submetidos a incontáveis filmes, desenhos, seriados, programas de televisão, reality shows, noticiários... Criancinhas, somos alfabetizados na linguagem audiovisual e aprendemos como funcionam os planos e os diálogos em uma cena. Entendemos quando o personagem está imerso em seus próprios pensamentos, quando o tempo volta em um flasback ou quando a música incidental toca apenas para nós, espectadores, sem de fato acontecer no ambiente da história.

Somos tão fluentes na linguagem do cinema, que nos tornamos distraídos. Esquecemos que o discurso cinematográfico, quando bem empregado, faz toda a diferença. Se o filme nos agrada, pensamos que é apenas por causa da boa história que nos foi contada – e da competência dos atores que a encenaram. Se não gostamos, deve ter sido o tema, o gênero, ou ambos. Porém, há muitas engrenagens que fazem um filme funcionar e todas precisam estar bem azeitadas. Os mais atentos sabem disso.

Escrevendo críticas na Crônica de Cinema, percebi que os cinéfilos não se dividem pelos gêneros. Claro, há os fanáticos por comédia, os que preferem os dramas, terror, ficção científica, ação, romance... Mas, de modo geral, todos assistem a tudo. O que divide os apaixonados pelo cinema é o olhar para os detalhes. A parte do público que prioriza o entretenimento é pragmática e sabe muito bem o que ama ou odeia. Já os detalhistas esquartejam o filme, pesam as partes boas e as ruins e só então se atrevem a avaliar. Os grandes arranca-rabos acontecem entre os pragmáticos e os detalhistas.

É esse o raciocínio que sigo ao escrever minhas críticas: tento apresentar alguns detalhes que escaparam aos mais distraídos e que possam interferir na balança dos detalhistas. Mas, como disse no começo, isso é o mesmo que pisar em ovos! Lembro quando ousei apresentar os motivos que me levaram a não gostar do filme À Beira Mar, escrito e dirigido por Angelina Jolie e estrelado por ela e Brad Pitt. Foi uma grita! Boa parte da audiência que comentou a favor do filme ignorou os meus argumentos.

Tentei mostrar que a diretora e roteirista decepcionou no final do filme, na hora de resolver o conflito entre os dois casais que se envolveram no quadrilátero amoroso da trama. Angelina põe Roland (Brad Pitt) para conversar com Lea (Mélanie Laurent), naquela que prometia ser a cena mais importante. Só que a cena é omitida! Sim, por incrível que pareça, o roteiro faz com que a cena não seja dramatizada na frente do expectador. Tudo o que a autora permite é que Roland conte como foi a tal conversa. Assim, a cena que deveria acontecer entre Brad Pitt e Mélanie, termina protagonizada pela própria diretora, mas sem a intensidade dramática necessária. Angelina roubou, literalmente, a cena!

Nos comentários, tentei argumentar que o importante ao contar uma história é saber dramatizá-la. Que colocar na boca de um ator uma fala meramente explicativa é deixá-lo de mãos amarradas. É deixa-lo sem meios de realizar sua arte. Mas de nada adiantou. Os fãs do casal hollywoodiano continuaram apaixonados pelo filme – não seria um detalhezinho como esse que mudariam opiniões sólidas!

Para minha sorte, descobri que, entre mortos e feridos, quem sempre sai ileso numa crítica é o próprio cinema. Continuo esquadrinhando os filmes que me interessam, escrevendo sobre os detalhes que consigo enxergar. E para os que acham que tudo é uma questão de preferência, de gostar ou não gostar, lembro que o cinema conjuga muitos outros verbos: envolver, encantar, emocionar, surpreender, instigar, entreter... Cada espectador que escolha o seu.