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O que Birdman disse que o cinema já esqueceu?

Birdman

Lançado há mais de 5 anos atrás, Birdman foi anunciado despretensiosamente. Muitas pessoas foram vê-lo no cinema, achando que o mesmo seria mais um filme de super-herói, afinal, era isso que nos parecia ao ver os seus trailers. O que alguns não esperavam era que o longa propositalmente foi feito pensando em enganar, e que de brinde ainda esbofetearia durante quase 2hs a cara de fãs que esperavam outra coisa.

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Ao escalar Michael Keaton, que por sinal está fantástico no papel, o filme fez um paralelo com a vida real do ator, pois aqui no longa, ele interpreta um homem que se tornou famoso nos anos 90 por interpretar um super-herói baseado em animal, e que, no presente, tem dificuldades de se encaixar, buscando no prestígio do teatro algo mais para sua carreira. Troque apenas Birdman por Batman. Não teria alguém mais apropriado.

É possível retirar do filme várias mensagens importantes, como uma bela crítica a nós críticos de cinema, a demonstração de atores difíceis de trabalhar, em que o papel foi dado cuidadosamente e inteligentemente a Edward Norton, e ao mostrar as pessoas que estão de fundo resolvendo todo tipo de problema, mas que pouco são vistas. Nem quero discorrer sobre o famoso plano sequência…

A mensagem central, na qual o filme brinca bastante (para não dizer outra coisa), é com o fato das pessoas não quererem mais obras com teor filosófico, pois, segundo o próprio Birdman, elas são consideradas chatas. A procura desenfreada por ação, lutas e superpoderes tem dominado o mundo do cinema, e a voz do homem-pássaro está lá para lembrar o quão fracassado é o ator que não está seguindo essa convenção. Há um momento convenientemente que o ator Robert Downey Jr. está sendo entrevistado na televisão, enquanto Riggan (Keaton) está abandonado em seu camarim.

Birdman

“Os blockbusters estão dominando, e é isso que vocês têm de continuar fazendo, parem de gastar recursos em filmes desinteressantes”. Birdman deu a mensagem, mas não disse exatamente essas palavras.

Na época de seu lançamento, o filme conseguiu atenção de muitos, ganhando diversos prêmios pelo mundo, inclusive o de Melhor Filme no Oscar 2015. Porém, suas mensagens foram se diluindo no grande mar dos Vingadores, fazendo do longa conhecido “apenas” entre os chamados cinéfilos.

É claro que não podemos esperar que o gosto de especialistas em cinema seja o mesmo do grande público, é assim com várias artes como música, livros... Há vários estilos de cinemas, e não podemos dizer que esse ou aquele seja o mais correto, no entanto, o que se vê hoje é um quase que completo domínio de dois estúdios (Warner/Disney), que destroem a capacidade até de conhecer outras obras, e para piorar, tais estúdios já se engrenam no mundo dos streamings, que era onde ainda se via trabalhos mais autorais.

Há aqueles que digam que existem fases no mundo da sétima arte, e que tais longas baseados em quadrinhos estão ficando saturados, no entanto, não é o que os números das bilheterias tem nos demonstrado, e existe ainda um catálogo imenso de longas que chegarão com status enormes, franquias essas que durarão pelo menos mais uma década.

Talvez eu seja o exemplo de crítica frustrada por não ter me tornado atriz, que Riggan citou.

Lembro-me de ter lido um artigo sobre o Vingadores: Ultimato, no qual o colega jornalista aponta os diversos problemas do longa, o susto foi ver o que eu pouco tinha presenciado na vida, um profissional ser totalmente massacrado, insultado e escrachado por não ter gostado do filme. Os fãs pareciam ter saído direto da inquisição, só que ao invés de usarem chapéus típicos da religiosidade, usavam capacetes de ferro.

Ao menos me dou o privilégio de estar enganada, e torço que estejamos mesmo apenas em uma fase, porém ainda me assusta pensar que tal período pode durar a minha vida inteira.

Como disse, o que o longa demonstrou já foi quase que completamente esquecido, fazendo jus talvez ao seu estranho, mas compreensível título "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)".