Recentes

O Poço | Crítica

Goreng
 
ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!

Trago hoje para vocês um longa espanhol que tem tido bastante audiência na Netflix. O filme tem chamado atenção por ter uma premissa quase única, e por trazer elementos de discussão social no mínimo interessantes. 

CONTINUA APÓS A PUBLICIDADE 

Psicoterapia Online

A obra começa com Goreng
Iván Massagué, que por sinal faz um trabalho de interpretação fantástico acordando em uma prisão, que é chamada aqui de Poço. O local é constituído por diversos níveis dos quais uma dupla de seres humanos fica em cada um deles. Ao meio existe um buraco que perpassa todos esses níveis (daí o nome de poço), e nessa abertura desce todos os dias uma mesa com diversos pratos de comida. O maior problema disso, é que as pessoas dos níveis mais altos sempre comem bem, já as pessoas dos níveis baixos sofrem com muita fome, pois quase ou nenhuma comida chega até eles.  

Tratando-se do enredo, a princípio ele é bastante envolvente, pois a direção de Galder Gaztelu-Urrutia vai aos poucos mostrando como funciona aquela prisão. Até a segunda metade do filme, o roteiro está trabalhando com os mistérios, o que deixa o longa ainda mais satisfatório já que nunca vimos nada como aquilo no entanto, o terceiro ato se perde ao tentar trazer um clímax não muito condizente ao que vinha sendo proposto. 

Em dado momento, o personagem Goreng passa a ter algumas visões, recurso este muito mal colocado, e que na maioria das vezes é feita de forma pobre. É possível que forcemos uma interpretação de suas alucinações, visto que o protagonista passa fome e está há muito tempo confinado, porém as falas dadas as seus supostos pensamentos interferem no mundo real, sendo usadas como recurso para o avançar da trama. Uma bela falta de criatividade.

Sobre a ideia geral do longa, muitos podem tê-lo visto apenas como uma alegoria à luta de classes, já que quem está acima têm bastante, e quem está abaixo precisa lutar pela sobrevivência, uma metáfora às sociedades de uma forma bem geral. Obviamente essa interpretação é válida, porém o longa busca dizer ainda mais. Como as pessoas estão sempre trocando de níveis, o que podemos captar como mensagem sobre esse local é o constante egoísmo humano, pois quando estão acima, pouco ligam para as pessoas abaixo, formando assim um ciclo de desprezo ou falta de empatia. Quando nosso protagonista passa a fazer parte daquele local, o mesmo é usado como a quebra dessa lógica, pois é ele que deve trazer a mudança, uma alegoria beirada ao messiânico.  

Goreng

O filme deixa muitas pontas soltas (por exemplo; quem são as pessoas da administração, qual o critério para escolha dos integrantes, por que Goreng quis entrar no poço, etc.), e isso pode tanto ter sido feito propositalmente para uma possível sequência, quanto a direção ter escolhido deixar o longa aberto a todo tipo de interpretações. Essa segunda opção parece ser a mais plausível, no entanto, sempre bom lembrar que deixar o filme muito metafórico pode dividir o público, e corre o risco também de sua mensagem não ser compreendida.

Falando em mensagem, o final é um desses momentos bem abertos deixados pelo diretor. Resumidamente a presença de uma garota pode ser entendida como talvez um toque de esperança àquele dinâmica, pode ser entendida também como a quebra do ciclo da falta de empatia, ou até pode ser vista como mais uma alucinação do protagonista, enfim, existem diversas visões para o mesmo fato... A verdade é que só saberemos caso haja uma sequência. 

O longa ganha alguns pontos por trazer uma ideia nova, por conseguir inserir uma discussão social em meio a uma trama relativamente simples, e por demonstrar ser um pouco mais do que os tradicionais filmes de "escapar".

O Poço é interessante, envolvente e traz diálogos por vezes bem inteligentes, porém desliza ao não conseguir explicar seu universo, e ao estar cheio de alegorias que exigem ou muito esforço ou uma explicação subjetiva demais, fazendo com que assim se perca totalmente sua unidade.

AVALIAÇÃO: 3.5  


Nenhum comentário

Por favor, seja respeitoso com o colega, obrigado!