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Coringa | Crítica


Coringa (Pllano Geral)

ESSE ARTIGO CONTÉM SPOILERS!

Em uma Gotham dos anos 70-80, o palhaço Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), trabalha para ser um comediante reconhecido, enquanto luta contra seus problemas financeiros, sociais e mentais.

Coringa de início me fez lembrar o choque que tive ao ver pela primeira vez o longa Cidade de Deus – uma sociedade tão assustadora, que apesar de ser fantasiosa por se tratar de um filme, você a considera tão próxima que é quase real. É muito fácil trazer para o nosso dia-a-dia todos aqueles questionamentos abordados durante a obra, e isso vai nos trazendo uma sensação de desconforto conforme o longa avança. A atmosfera e os acontecidos com Fleck de fato podem nos causar um incomodo genuíno, pois se pode imaginar que saindo da sala de cinema, algo parecido pode estar acontecendo perto de você.
 
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 A violência do longa é graficamente explícita por algumas vezes, o que possivelmente gerou toda a polêmica sobre o "ser violento demais", no entanto, o peso das cenas são bens construídas e condizentes com sua premissa, logo, criticar uma obra sobre o que ela quer ser em sua natureza dando razões para essa sua posição, é um erro injustificável. Coringa quer e é violento, não faz sentido julgá-lo por isso. 

Sobre a fotografia, a mesma está um primor, as cenas estão artisticamente maravilhosas e passam muitas vezes mensagens para os mais atentos. Posso citar por exemplo, o arrastado subir de escadas de Arthur, com toda a cena em coloração azulada, que nos diz o quanto é sofrido aquele subir. Mais adiante em um dos ápices, o Coringa desce todo confiante as mesmas escadas, e a fotografia agora nos joga cores mais quentes, transmitindo uma virada daquele personagem. O diretor Todd Phillips não esconde sua referência em obras de Scorsese. 


O roteiro faz questão de deixar interpretativa algumas cenas, dando dicas ou pistas do que realmente poderia ter ocorrido. Um exemplo disso é o núcleo que trata de sua mãe Penny Fleck (Frances Conroy). Quando Arthur descobre que ela realmente foi internada no Asilo Arkham por problemas mentais – como Thomas Wayne (Brett Cullen), tinha lhe dito antes – ele conclui que Penny realmente mentiu sobre a história dele ser filho do magnata, porém, em um flash back a mesma insinua que Wayne teria armado sua internação, o que é facilmente aceitável no contexto do longa. Já em outro momento, aparece escrito “Love T.W” em uma fotografia que Fleck segura de sua mãe, o que poderia indicar que Penny realmente falava a verdade. Esse arco trouxe apenas mais revolta à Arthur.

Já se falarmos de Joaquin Phoenix, não tem outra, o homem está um espetáculo. O ator consegue facilmente te fazer embarcar em todo aquele sofrimento. É de se maravilhar as nuanças de sua voz, enquanto ri e praticamente chora ao mesmo tempo, ou até mesmo quando despeja olhares que transmitem raiva, que transmitem medo e que transmitem ódio. Sua mente está em caos e não há um só momento que o personagem consiga se encaixar no ambiente a sua volta. Seu físico é algo também de se impressionar, sua magreza assusta e seus movimentos bizarros nos diz o quão perigoso é aquele sujeito. Interpretação digna de Oscar.  

Esse “não se encaixar” socialmente falando, é por sinal uma das críticas do próprio personagem ao final da obra. Ele questiona o quanto a sociedade – pessoas mais ricas – querem que eles se calem, que fiquem encolhidos enquanto há todo tipo de exploração de pessoas. Arthur foi sendo cada vez menos visto, jogado de lado e abandonado, e tudo isso pode gerar um esquecimento de identidade, uma perca de si próprio, que é justamente o que ele conquista ao matar as primeiras pessoas, pois pela primeira vez Arthur Fleck se tornou alguém.


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É interessante discutirmos como a direção de T. Phillips parece que quer que nos compadecemos de Arthur, no entanto, o longa é enfático em mostrar os transtornos mentais que o personagem sofre. Todo aquele início do qual Fleck vai sofrendo com várias situações – perda de emprego, espancamentos e a doença mental – beira a justificativa de um possível surto, pois se usarmos de empatia podemos nos perguntar: O que será que faríamos se nos acontecesse algo parecido? Será que não seríamos iguais? 

Obviamente as situações nos moldam e nos levam a atitudes que consideramos extremas, já que, é importante lembrar que somos sujeitos biopsicossociais, o que significa que a sociedade tem sim um grande peso em nossas escolhas. Porém, Arthur teve dificuldades nessas três perspectivas que nos constituem, por isso não podemos dizer que Coringa é vitima da sociedade. Saliento ainda que sofrimento social não fará de você um psicopata. Aqui as falas do apresentador Murray Franklin (Robert De Niro) são certeiras, e elucida o discurso infantil de Coringa o questionando a razão dele matar pessoas. Arthur é mentalmente instável, e o confronto do apresentador o deixa sem palavras. O personagem é um psicopata, e todo o ocorrido em momento algum justifica seus atos de crueldade.  

NOTA DO FILME: 9,5

Estou ambivalente se gostaria de uma continuação, e você, o que acha?